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mauro-sergio-toporovskiDr. Mauro Sergio Toporovski – Gastroenterologia

10 MAR 2014

É comum a ocorrência de sintomas de RGE em lactentes e, uma parte das vezes, ele pode ser decorrente de alergia à proteína do leite de vaca (APLV). No primeiro ano de vida, na maior parte desses casos o mecanismo alérgico determinante é não IgE mediado, portanto não passível de diagnóstico através dos testes sorológicos RAST/IMMUNOCAP, ou mesmo do teste cutâneo de punctura (Pricktest). Muitos desses pacientes apresentam quadro sintomatológico expressivo, com inúmeras regurgitações, vômitos, dificuldade alimentar e choro excessivo. Não raramente, o pediatra prescreve procinéticos e/ou antiácidos na tentativa de minimizar os sintomas de lactentes com poucos meses de vida, sendo o resultado prático dessas associações desanimador.

O estudo recentemente publicado por Borrelli et al (J Pediatr, 2012) demonstra com clareza os motivos pelos quais nos casos de alergia alimentar não há uma resposta efetiva quando se prescrevem os diferentes antiácidos. Os autores estudaram 17 lactentes com mediana de idade de 14 meses e diagnóstico firmado de APLV que apresentavam sintomas de RGE tais como vômitos, recusa alimentar, cólicas abdominais e desaceleração do ganho ponderal. Mais de 80% dos pacientes recebiam previamente tratamento com inibidores de bomba de prótons, sem sucesso. Outros recebiam antiácidos anti-H2 ou procinéticos. Todos foram submetidos a uma prova denominada impedâncio-pHmetria intraluminal (IMP-pH), de 48 horas de duração. Este tipo de exame permite observar a presença de refluxos gastroesofágicos tanto ácidos como fracamente ácidos e alcalinos, assim como determinar se os episódios de refluxo atingem o terço distal, médio e proximal do esôfago. No primeiro dia de prova os lactentes foram alimentados com fórmula à base de aminoácido (registrando-se em média 65 refluxos/dia) e no segundo dia fórmula à base de leite de vaca resultando em elevação do número de refluxos/dia para 105 (p<0,001). O número total de refluxos ácidos foi discreto e praticamente igual nos dias de prova, entretanto o número de refluxos fracamente ácidos foi 3 vezes maior (19 no dia 1 e 53 no dia 2) durante o teste de provocação com o LV (p<0,001). Foram igualmente detectados refluxos mais volumosos que atingiram o esôfago proximal, assim como mais duradouros quando da exposição à fórmula de LV.

Comentários: a associação sintomatológica de DRGE e APLV é muito comum nos primeiros meses de vida. O pediatra deve estar atento a manifestações de RGE que se exacerbam após a introdução do LV na dieta dos lactentes. Em geral, o quadro clínico é expressivo, sendo a dificuldade alimentar e a desaceleração do ganho ponderal dados chamativos. Os modelos experimentais para estudo das reações alérgicas no trato digestório apontam para a liberação de mediadores, que determinam dismotilidade gastrointestinal, retardo do esvaziamento gástrico e maior número de relaxamentos do esfíncter esofágico inferior, propiciando dessa forma refluxos gastroesofágicos mais numerosos e consistentes.

Jill Greenberg: Cry Baby

Jill Greenberg: Cry Baby

Referência Bibliográfica
Borrelli O et al. Cow’s Milk Challenge Increases Weakly Acidic Reflux in Children with Cow’s Milk Allergy and Gastroesophageal Reflux Disease. J Pediatr. 2012 Sep;161(3): ):476-481.

Veja mais em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22513270