Dra. Ana Elisa Kiszewski Bau

Vice Presidente do Departamento de Dermatologia da SBP
Professora Adjunta de Dermatologia da UFCSPA. Dermatologista Pediatra do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre-RS

Proteja seu Filhote do Sol

Estudos mostram que a exposição solar excessiva na infância aumenta de forma significativa o risco de câncer de pele na idade adulta. Calcula-se que 80% de toda radiação solar que recebemos durante toda a vida ocorre nos primeiros 18 anos de idade. Isso poderia ser explicado pelo fato das crianças realizarem muitas atividades ao ar livre e de nem sempre utilizarem medidas de fotoproteção. Outros fatores que se somam são as tendências culturais e sociais que aprovam o bronzeado, bem como a depleção da camada de ozônio, ambos contribuindo para o aumento nos níveis de UV recebidos durante a infância e adolescência.

Neste contexto, campanhas de fotoproteção estão sendo desenvolvidas em diversos países, com o objetivo de alertar os pais sobre os riscos da exposição solar excessiva e orientar sobre as atitudes preventivas. O pediatra tem uma posição de destaque nestas campanhas, pois é ele o especialista que tem maior oportunidade de transmitir estas informações. Atualmente, a OMS considera a criança como o principal alvo das campanhas de fotoproteção.

Alguns conceitos:

Fototipo: é a caracterização da pele quanto a sua coloração e reação à exposição solar. Leva em conta a quantidade de melanina do indivíduo (cor da pele, cabelos e olhos), e sua facilidade para sofrer queimadura solar e para bronzear. São classificados de I à VI, de acordo com a classificação de Fitzpatrick1. O tipo I é a pele muito clara, que sempre queima e nunca bronzeia e o fototipo VI a pele negra, muito pigmentada, que nunca queima e sempre bronzeia. Do fototipo I ao VI existe um aumento gradual da pigmentação cutânea e da resistência à queimadura solar.

O sol e a radiação Ultravioleta: A radiação ultravioleta representa somente 5% da radiação emitida pelo sol. As características da radiação ultravioleta são as seguintes: UVA (320-400nm) está particularmente envolvida no fotoenvelhecimento cutâneo, mas também possui efeito carcinogênico. UVB (290-320nm), é o principal responsável pelo eritema e a queimadura solar e responsável por 65 a 70% dos efeitos carcinogênicos das radiações solares.

Capital solar individual: desde o nascimento todas as pessoas apresentam uma capacidade específica para se adaptar ao sol, chamada de “capital solar”. Este capital varia de forma proporcional ao tipo de pele (fototipo) e diminui à medida que aumenta o número de horas de exposição solar durante a vida. Uma vez que o capital individual é consumido, as lesões causadas pelo sol começam a aparecer, assim como o envelhecimento cutâneo e o câncer de pele.

Câncer de pele e exposição UVA e UVB: Há três tipos principais de câncer de pele: carcinoma basocelular, carcinoma de células escamosas (espinocelular) e melanoma. Estudos demonstram que eles se associam a dois tipos de exposição UV: solar intensa e esporádica (queimadura solar) produzida por ação predominante da UVB e a exposição solar crônica (bronzeado) produzida por ação predominante da UVA. A queimadura solar na infância está associada a um risco aumentado de melanoma (3 vezes maior). O carcinoma espinocelular e basocelular estão relacionados principalmente com a exposição solar crônica. Também está demonstrado que exposição solar excessiva na infância aumenta o número de nevos melanocíticos adquiridos.

Alguns estudos mostram que a incidência de queimadura solar entre crianças americanas é alta, variando de 2 a 83% para o último verão (com uma média de 5 ou mais queimaduras solares). Uma pesquisa no sul da França com crianças entre 3 e 12 anos mostrou que eles passavam mais de 6 horas por dia ao ar livre e que 90% destas crianças tinham sofrido pelo menos uma queimadura solar. Estima-se que a incidência de queimadura solar em crianças brasileiras seja ainda mais elevada, pois em muitos de nossos estados o clima de verão predomina durante o ano inteiro, variando apenas a intensidade de chuvas. As meninas apresentam, particularmente, maior risco de queimaduras e câncer de pele. Elas tendem a abandonar os cuidados preventivos e o uso de filtro solar, assim que entram na adolescência. Além disso, adolescentes do sexo feminino costumam procurar mais o bronzeamento artificial.

O câncer de pele em crianças está se tornando mais comum. As estatísticas mundiais mostram que correspondem a 4% dos tumores malignos e estima-se que 90% deles poderiam ser evitados. O melanoma em crianças é raro (1 a 3% das neoplasias malignas), mas sua incidência também está aumentando, (2,9%/ano de 1973 a 2001). Adolescentes de 15 a 19 anos representam mais de 70% dos casos de melanoma pediátrico. Sessenta por cento dos pacientes com melanoma são meninas com idade entre 10 e 19 anos.

Fatores de risco para o câncer de pele:

1- Fatores de risco de todos os tipos de câncer de pele:

  • Cabelos loiros ou ruivos
  • Olhos claros
  • Presença de efélides (sardas)
  • Pele clara: fototipos I e II
  • História familiar de câncer de pele

2- Fatores de risco adicionais para melanoma em crianças:

  • xeroderma pigmentoso,
  • nevo melanocítico congênito gigante,
  • múltiplos nevos melanocíticos adquiridos,
  • síndrome dos nevos displásicos,
  • nevo atípico
  • imunossupressão
  • história familiar de melanoma

 3- Único fator de risco para melanoma que pode ser modificado é a exposição solar em excesso.

Câmaras de bronzeamento artificial são uma causa importante de câncer de pele em adolescentes e foram proibidas em 2009 pela ANVISA no Brasil. Os riscos do bronzeamento artificial são bem conhecidos: queimadura na pele e córnea, catarata, infecções cutâneas, fotoenvelhecimento,exacerbação de doenças relacionadas à fotossensibilidade e câncer de pele.

Por isso, é importante o conceito de que NÃO HÁ BRONZEAMENTO SEGURO!

Medidas de Fotoproteção

  • Evitar exposição solar especialmente entre as 10 e 15 horas ou entre 11 e 16 horas (horário de verão);
  • Usar roupas e bonés adequados;
  • Óculos com proteção solar;
  • Filtros solares com FPS 30 ou mais;
  • Proteger-se também nos dias nublados.
  • Proteger-se mesmo que a pele esteja bronzeada.

As roupas normalmente proporcionam fator de proteção ultravioleta (FPU) entre 2 e 12. O nylon, a seda e o poliéster tem maior fator de proteção que o algodão, a viscose, o rayon e o linho. A proteção é maior quanto menor os espaços entre os fios e quanto maior for o peso e a grossura do tecido.

Colorações escuras aumentam a proteção 3 a 5 vezes do tecido. Por isso, se o algodão for grosso e escuro pode conferir proteção maior que outros tecidos.

As roupas quando molhadas perdem metade do FPU.

Roupas especiais, feitas com tecido de alto  FPU, proporcionam em média FPU igual a 50 (mas podem chegar até 98% segundo alguns fabricantes).

Películas nos vidros podem dar proteção extra UVA e UVB. As películas para vidros apresentam proteção UV de até 99%. O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) regulamenta a transparência dos vidros.

Lembrar que água, areia e neve refletem 10%, 15% e 80% respectivamente e por isso na praia pode ocorrer queimadura mesmo na “sombra” ou dentro da água.

Aditivos utilizados em produtos de lavanderia são utilizados nos Estados Unidos da América (Rit® Sun Guard™) e  proporcionam proteção UV extra.

Orientações para dias com índice UV alto (índice de UV global ³6):

  • Realizar atividades em ambientes fechados ou procurar ficar na sombra.
  • Se a exposição for inevitável, utilizar todos os recursos para proporcionar proteção solar adequada: guarda sol, boné, roupas com proteção UV, óculos e filtro solar com FPS 30 ou mais.

Como Funciona o Filtro Solar

O Fator de Proteção Solar (FPS) é um conceito que os pais devem entender: O bloqueio de raios UVB (responsáveis pelas queimaduras é calculado com base no tempo necessário para a pele desenvolver eritema mínimo (queimadura) com a aplicação de 2 gr/cm2. A maioria dos consumidores aplicam doses sub-terapêuticas do filtro solar, o que resulta em um FPS menor do que o indicado na embalagem: Se os pais aplicam 50% da dose recomendada de filtro com FPS 30 o efeito protetor produzido será de FPS 15. Não há um sistema oficial para medir a proteção solar UVA até o momento, mas o PPD é utilizado em muitos marcas de filtro solar. Basta dividir o FPS pelo PPD e se o resultado estiver entre 1 e 3 a proteção solar UVA está adequada.O filtro solar deve ser aplicado 15 a 30 minutos antes da exposição solar e reaplicado a cada 2 horas ou após imersão na água ou transpiração excessiva. Os filtros em spray são práticos, mas a cobertura é seguidamente inadequada e por isso devem ser evitados. Um secado energético com a toalha pode remover até 85% do filtro solar. É importante não esquecer de aplicar o filtro solar nas orelhas e nos lábios (bastão).

Como Funciona O Filtro Solar:

Podemos dividir didaticamente os filtros solares em dois tipos: físicos e químicos.

Físicos:

  • Atuam como barreira física, principalmente refletindo os raios UV. Contém pequenas partículas de dióxido de titânio e óxido de zinco e outros minerais, talco e calamina.
  • Não são irritantes, nem sensibilizantes.
  • Tendência atual em utilizar partículas micronizadas, que conferem maior aceitação cosmética dos pacientes.

Químicos:

  • Atuam principalmente absorvendo UVA como antralinas e avobenzona  e  raios UVB como benzofenona-3 (oxibenzona), PABA, cinamatos, salicilatos, octocrileno.
  • Maior risco de dermatite de contato.
  • Maior aceitação cosmética.
  • A utilização de Benzofenona-3 tem sido motivo de discussão pelo potencial carcinogênico. No entanto, estes achados foram demonstrados somente em experimento com animais e não parece oferecer risco à saúde na concentração aprovada pela ANVISA. Novos questionamentos estão surgindo sobre o seu potencial efeito como disruptor endócrino, particularmente em crianças.
  •  Atualmente, existe uma tendência à utilização de filtros químicos mais fotoestáveis, com amplo espectro de proteção (UVA e UVB) como o tinosorb (M e S) e mexoryl (SX,XL), associados ou não a filtros físicos.

Recomendações para o uso do Filtro Solar conforme a idade:

  • Os bebês até os 6 meses: não é recomendado exposição solar prolongada (praia, piscina). Na criança, se considera que 15 minutos duas ou três vezes por semana são suficientes (sem o uso do filtro solar) para manter níveis adequados de vitamina D.
  • Dos 6 meses aos 2 anos: a recomendação é utilizar somente filtros 100% físicos (filtro” baby” ou “mineral”) .
  • A partir dos 2 anos o recomendado é o uso de filtro solar infantil que são,em geral, uma mistura de filtros químicos e físicos.
Bibliografia
1- Freedberg IM, Eisen AZ, Wolff K, Austen KF, Goldsmith LA, Katz SI et al, editors. Fitzpatrick’s dermatology in general medicine. 5th.ed. New York: McGraw-Hill; 1999.
2- Jen M, Murphy M, Grant-Kels JM. Childhood melanoma. Clin Dermatol. 2009 Nov-Dec;27(6):529-36.
3- Maguire-Eisen M, Rothman K, Demierre MF. The ABCs of sun protection for children. Dermatol Nurs. 2005 Dec;17(6):419-22, 431-3; quiz 434.
4- Valdivielso-Ramos M, Herranz JM. [Update on photoprotection in children]. An Pediatr (Barc). 2010 Apr;72(4):282.e1-9. Epub 2010 Jan 6.
5- – M. Berneburg and C. Surber. Children and sun protection.British Journal of Dermatology 2009 161 (Suppl. 3), pp33–39.
6- Puzenat E. Pourquoi et comment protéger les enfants du soleil? Arch Pediatr.2010 Jun;17(6):914-5.